Eu sempre tive paixão por circo. Por coincidência, na última quinta-feira, passou um carro de som na minha rua anunciando a estréia do Circo Europeu para o dia seguinte. Não tive dúvidas, chamei minha esposa, pois como era véspera de feriado e não íamos viajar, seria um programa e tanto.
Na sexta-feira chegamos ao circo para a última sessão. Estávamos aliviados por encontrar três carros no estacionamento. A estrutura era muito acanhada. Ao chegar na bilheteria tive que acordar o funcionário para comprar os ingressos. Pedi duas cadeiras laterais, pois eram mais baratas. Na entrada ainda conversei com o dono do circo. Era um espanhol de idade já avançada.
Quando já nos encontrávamos na parte interna, percebemos que todos os espectadores iriam se sentar nas cadeiras centrais. Faltando cinco minutos para o início, tive a preocupação de contabilizar o público. Eram trinta e duas pessoas, somando-se adultos e crianças.
O espetáculo começou com uma apresentação de dança e em seguida teve a cama elástica. Para um público menos exigente, as duas primeiras apresentações já eram dignas de levantar e ir embora. Mas como já sabíamos da precariedade do empreendimento e por respeito aos artistas resolvemos continuar até o final. A frustação foi quebrada pelas presenças dos palhaços Leite Ninho e Bob Esponja.
Foram escolhidas quatro crianças da platéia enquanto providenciavam a montagem da estrutura do próximo número. A brincadeira proporcionada pelo palhaço foi hilária. Era fantástica a reação das crianças. E o número era bastante simples.
No intervalo compramos um churro recheado e um refrigerante. O churro estava tão frio, mas tão frio que tivemos a impressão de que ele estava guardado desde o último espetáculo da cidade anterior. O segundo tempo foi iniciado com a apresentação do trapézio. A emoção era redobrada, pois a rede de proteção era mais velha que a avó da Hebe Camargo.
Quando acabou o número do trapézio, foram apresentadas atrações mais amenas, como malabarismo, mágica etc. O mais importante e gratificante foi perceber a ausência de animais, pois foi baixada uma lei proibindo a utilização deles em espetáculos circenses.
A situação começou a mudar, pelo menos pra mim, quando o palhaço Bob Esponja foi para a platéia para escolher algum voluntário. Para me safar dessa escolha, me encolhi na cadeira de plástico amarelo tentando não ser percebido. Ainda bem que minha esposa foi solidária (com o Bob Esponja), pois ela, com o dedo em seta, apontou-me dizendo que eu queria participar.
O palhaço Bob Esponja levou-me até o picadeiro e através da mímica interpretou que iríamos jogar uma partida de tênis. Achei que não passaria por uma situação constrangedora. Mas durante o aquecimento, Bob Esponja alegou que a minha axila estava fedendo. Neste momento ele sacou um desodorante de quinta categoria e injetou embaixo dos meus braços e na minha calça. ( Para terem noção da coisa, tive que colocar a calça para lavar e fiquei com o corpo fedendo por um bom tempo).
Para abrilhantar a performance, Bob Esponja amarrou uma faixa na minha cabeça e solicitou que eu vestisse uma minissaia branca. Ainda bem que o circo não estava tão cheio. Mesmo assim, percebia-se a risada da platéia (eles riam de mim e da risada da minha esposa). Fizemos várias simulações de um jogo de tênis, sendo o auge em câmera lenta, acompanhados pela música Carruagem de Fogo . Fui bastante aplaudido.
Antes do número do globo da morte fui novamente escolhido para outra atividade, mas agora com outras pessoas. Consistia em simular a utilização de um instrumento musical. Uma mulher que também foi escolhida começou tocando um violino. No final ela era obrigada a dar uma pequena rebolada. Bob Esponja me escolheu para a segunda apresentação. O meu instrumento seria a bateria. Eu pedi para ser escolhido por último, aí o rapaz que estava ajudando a montar o globo da morte me alertou que o último seria pior. Porém, antes de tocar a bateria eu teria que colocar a bunda para trás e sair rebolando e pulando ao mesmo tempo. ´Fiz a minha parte da melhor maneira possível e fiquei curioso para saber como seria o último.
O rapaz que foi presenteado como sendo o último estava com a namorada e sentavam na fileira que ficava atrás da nossa. Ele tentou escapar pela parte de trás do picadeiro, mas foi impedido pelo palhaço Bob Esponja ( que foi avisado por mim ). O papel dele consistia em colocar os dois braços para o alto, unidos pelas palmas das mãos, e dançar como uma verdadeira rumbeira. No começo ele estava até acanhado, mas depois parece-me que se soltou muito além do limite do movimento circulatório dos quadris. Olhando aquela cena, me descobri como sendo uma pessoa nutrida de alto grau de vingança, pois não seria ridicularizado sozinho.
Foi uma noite inesquecível, pois ouvi de minha esposa que aquilo foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos anos (Pra ela, deixando bem claro). Infelizmente, a bilheteria não foi suficiente para arcar com os custos do espetáculo e com o meu cachê milionário.
Cirque du Soleil nunca mais.
