terça-feira, 17 de novembro de 2009

Respeitável Público.

Eu sempre tive paixão por circo. Por coincidência, na última quinta-feira, passou um carro de som na minha rua anunciando a estréia do Circo Europeu para o dia seguinte. Não tive dúvidas, chamei minha esposa, pois como era véspera de feriado e não íamos viajar, seria um programa e tanto.

Na sexta-feira chegamos ao circo para a última sessão. Estávamos aliviados por encontrar três carros no estacionamento. A estrutura era muito acanhada. Ao chegar na bilheteria tive que acordar o funcionário para comprar os ingressos. Pedi duas cadeiras laterais, pois eram mais baratas. Na entrada ainda conversei com o dono do circo. Era um espanhol de idade já avançada.

Quando já nos encontrávamos na parte interna, percebemos que todos os espectadores iriam se sentar nas cadeiras centrais. Faltando cinco minutos para o início, tive a preocupação de contabilizar o público. Eram trinta e duas pessoas, somando-se adultos e crianças.

O espetáculo começou com uma apresentação de dança e em seguida teve a cama elástica. Para um público menos exigente, as duas primeiras apresentações já eram dignas de levantar e ir embora. Mas como já sabíamos da precariedade do empreendimento e por respeito aos artistas resolvemos continuar até o final. A frustação foi quebrada pelas presenças dos palhaços Leite Ninho e Bob Esponja.

Foram escolhidas quatro crianças da platéia enquanto providenciavam a montagem da estrutura do próximo número. A brincadeira proporcionada pelo palhaço foi hilária. Era fantástica a reação das crianças. E o número era bastante simples.

No intervalo compramos um churro recheado e um refrigerante. O churro estava tão frio, mas tão frio que tivemos a impressão de que ele estava guardado desde o último espetáculo da cidade anterior. O segundo tempo foi iniciado com a apresentação do trapézio. A emoção era redobrada, pois a rede de proteção era mais velha que a avó da Hebe Camargo.

Quando acabou o número do trapézio, foram apresentadas atrações mais amenas, como malabarismo, mágica etc. O mais importante e gratificante foi perceber a ausência de animais, pois foi baixada uma lei proibindo a utilização deles em espetáculos circenses.

A situação começou a mudar, pelo menos pra mim, quando o palhaço Bob Esponja foi para a platéia para escolher algum voluntário. Para me safar dessa escolha, me encolhi na cadeira de plástico amarelo tentando não ser percebido. Ainda bem que minha esposa foi solidária (com o Bob Esponja), pois ela, com o dedo em seta, apontou-me dizendo que eu queria participar.

O palhaço Bob Esponja levou-me até o picadeiro e através da mímica interpretou que iríamos jogar uma partida de tênis. Achei que não passaria por uma situação constrangedora. Mas durante o aquecimento, Bob Esponja alegou que a minha axila estava fedendo. Neste momento ele sacou um desodorante de quinta categoria e injetou embaixo dos meus braços e na minha calça. ( Para terem noção da coisa, tive que colocar a calça para lavar e fiquei com o corpo fedendo por um bom tempo).

Para abrilhantar a performance, Bob Esponja amarrou uma faixa na minha cabeça e solicitou que eu vestisse uma minissaia branca. Ainda bem que o circo não estava tão cheio. Mesmo assim, percebia-se a risada da platéia (eles riam de mim e da risada da minha esposa). Fizemos várias simulações de um jogo de tênis, sendo o auge em câmera lenta, acompanhados pela música Carruagem de Fogo . Fui bastante aplaudido.

Antes do número do globo da morte fui novamente escolhido para outra atividade, mas agora com outras pessoas. Consistia em simular a utilização de um instrumento musical. Uma mulher que também foi escolhida começou tocando um violino. No final ela era obrigada a dar uma pequena rebolada. Bob Esponja me escolheu para a segunda apresentação. O meu instrumento seria a bateria. Eu pedi para ser escolhido por último, aí o rapaz que estava ajudando a montar o globo da morte me alertou que o último seria pior. Porém, antes de tocar a bateria eu teria que colocar a bunda para trás e sair rebolando e pulando ao mesmo tempo. ´Fiz a minha parte da melhor maneira possível e fiquei curioso para saber como seria o último.

O rapaz que foi presenteado como sendo o último estava com a namorada e sentavam na fileira que ficava atrás da nossa. Ele tentou escapar pela parte de trás do picadeiro, mas foi impedido pelo palhaço Bob Esponja ( que foi avisado por mim ). O papel dele consistia em colocar os dois braços para o alto, unidos pelas palmas das mãos, e dançar como uma verdadeira rumbeira. No começo ele estava até acanhado, mas depois parece-me que se soltou muito além do limite do movimento circulatório dos quadris. Olhando aquela cena, me descobri como sendo uma pessoa nutrida de alto grau de vingança, pois não seria ridicularizado sozinho.

Foi uma noite inesquecível, pois ouvi de minha esposa que aquilo foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos anos (Pra ela, deixando bem claro). Infelizmente, a bilheteria não foi suficiente para arcar com os custos do espetáculo e com o meu cachê milionário.

Cirque du Soleil nunca mais.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Hoje é o meu aniversário.

O que é o tempo?
Hoje, creio que por volta das 21 horas e 30 minutos, estarei completando 45 anos de idade. Não tenho noção se isso é preocupante ou não. Penso que poderia estar com uma idade mais avançada para desfrutar coisas que outras gerações, anteriores à minha, tiveram o privilégio de testemunhar. E sei que, se eu fosse um norte-americano, seria catalogado como pertencente à geração baby boomer ( que são pessoas nascidas entre 1945 e 1964 ).

O importante é perceber que o tempo não muda. Somos nós que mudamos. Lembro que na minha infância achava que eu nunca seria calvo, pois gozava de uma generosa quantidade de cabelo. E hoje, ao acordar, tenho que fazer manobras com o pente (o meu se chama patapata) para conseguir disfarçar as grandes entradas frontais. Eu percebo esta mudança quando lembro de parentes e conhecidos na fase adolescente e que hoje se preocupam com o cotidiano dos netos.

Agradeço por pertencer a uma geração totalmente diferente da geração atual. Eu quase alcancei a fase em que para prestar vestibular na Fuvest, existiam três classificações específicas: Mapofei, Cescea e Cescem. Eu não consigo explicar do que se trata, porém, a minha prima Cleibe prestou vestibular nesses moldes. E eu lembro quando a Cleibe tinha 17 aninhos e hoje, bem . . .

Alguns eventos foram marcantes durante a minha vida. Quando eu tinha oito anos de idade, cheguei em casa com a minha família e liguei a TV, que ainda era com a imagem nas cores preta e branca. Ao ligar, o jornal estava anunciando a morte de Pixinguinha. Foi no dia 17 de fevereiro de 1973. E hoje a juventude não sabe que é esse gênio da música popular brasileira.

Lembro quando perguntei ao meu pai qual era a idade dele. Ele estava com 36 anos e hoje, se ele estivesse entre nós, seria uma pessoa pertencente à melhor idade com 74 anos. Mas, o que é o tempo ? Nos estudos teosóficos lembro que no Tibete um krita yuga corresponde a 1.728.000 anos. É por isso que certas religiões consideram a nossa passagem por este mundo demasiado efêmera e nada mais é que um processo de depuração para outras vidas. Não pretendo galgar ao posto de avatar, mas passar por este ciclo de nascimento e morte é deveras interessante, mesmo discordando de Empédocles. Mas. . . quem sou eu para discordar de Empédocles?

Vivenciar os fatos nos dá ferramentas para compará-los e tirar algumas conclusões. Lembro muito bem da luta dos universitários pela redemocratização do Brasil. Lembro de Médici, Ernesto Geisel e João Batista de Oliveira Figueiredo. Parece que foi ontem que compareci, em frente ao Elevador Lacerda, ao comício pelas eleições diretas. Estavam presentes Tancredo Neves, Ulisses Guimarães e Osmar Santos. No encerramento, Caetano Veloso restringiu a sua participação cantando a música "Um Frevo Novo", acompanhado do trio elétrico Papaléguas. O que o passar do tempo acarretou ? Tancredo Neves morreu, Ulisses sumiu, Osmar Santos já não fala mais, Caetano Veloso há muito tempo não fala nada interessante e o Papaléguas foi visto pela última vez , há mais de 15 anos,na festa de São Pedro na cidade de Itajuípe . E hoje os universitários estão discutindo qual o tamanho ideal para um vestido na cor rosa.

Com a revolução high-tech, todo mundo é cantor, ator e escritor. Eu mesmo entrei nessa barca. Já que o tempo é efêmero, vamos aproveitar. E no meu tempo de ginásio, eu fazia pesquisa na Biblioteca Presidente Kennedy, em Santo Amaro. E era tudo escrito manualmente, pois eu não tinha curso de datilografia e não havia nem resquícios do recurso ainda atual chamado Ctrl C - Ctrl V.

Creio que estou conseguindo acompanhar a marcha do tempo. A minha esposa, que é apenas 15 anos mais nova do que eu e que foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos 7 anos se beneficia dessa diferença de gerações. Ela ficou estupefata ao saber que eu já tinha ido ao show da Gretchen quando ela estava no auge. O melhor é ver que a Gretchen também está antenada com o tempo, pois ela utiliza um elemento que é a última palavra em matéria de estética facial: o botox.

A minha diversão na infância era andar de trem até a cidade de Jundiaí. Lembro do caminho que fazíamos até chegar à antiga ponte Morumbi para pegar o trem. Íamos eu, meu irmão e meu pai. Não havia nenhum prédio nas redondezas e hoje é o metro quadrado mais caro de São Paulo. Lembro quando minha mãe nos levava para passear no vão do MASP. Havia um brinquedo que parecia uma espaço-nave, pois era uma estrutura redonda, em aço forjado e repleto de molas. Hoje a diversão é um aparelhinho chamado playstation. No sábado passado, um amigo achou interessante que o filho foi transportado dentro de um carrinho de mão em Morro de São Paulo. Na minha infância, carrinho de rolimã era a coisa mais comum.

Não foi me estender sobre as lembranças do passado. Se eu relatar mais um episódio, vão alegar que eu participei da Santa Ceia.

O mais importante é acompanhar toda essa transição e imaginar o que vai ser o futuro. É não se deixar levar pela velocidade que o inconsciente coletivo tenta imprimir. Que tudo tem o seu tempo. O que é bom perdura. Quando vejo Oscar Niemeyer, com mais de um século de idade, executando vários projetos e planejando outros, aumenta o meu ímpeto de me reinventar e conhecer outras possibilidades como ser humano.

O que é o tempo ?

" Marca a hora, o relógio;
mas o que é que marca a eternidade?
Temos esgotado assim
trilhões de verões e invernos.
trilhões há mais pela frente
e trilhões a frente deles"

Walt Whitman.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Segunda Lua de Mel em Buenos Aires.

Tudo foi planejado pela minha esposa, pois deveria haver coincidência das datas de comemoração de casamento com o período de férias. E estar em Buenos Aires, no dia 02 de outubro, seria primordial. Resolvemos criar um roteiro que atendesse aos nossos gostos em comum. Mas analisando friamente, quase todos os nossos gostos se coadunam. Creio que essa variável seja relevante para a prosperidade de nosso relacionamento. E aquilo que só basta para um, mesmo sendo esquisito, é respeitado pelo outro. Sendo assim, tenho certeza que irei escrever sobre a comemoração do nosso vigésimo ano de casamento e outros adiante e outros mais . . .

Atendendo sugestões de um brasileiro que vive lá desde a década de 90, reservamos uma mesa no Bar Thelonius. A banda que iria tocar, Scafandrum, tinha como referência "Pipi" Piazola, neto do grande músico Astor Piazola. "Pipi" é considerado um dos melhores bateristas do mundo. Chegamos meia hora antes da abertura da casa. Durante esse tempo de espera podíamos ouvir ao ensaio da banda e sentir aquela leve fragrância de marijuana. Comentamos que o show seria "calibrado". Não deu outra, foi a melhor performance que assistimos ao vivo. Era uma mistura de jazz aos moldes de Chick Corea com o sentimento portenho. Saímos de lá inebriados.

No dia seguinte fomos ao Jardim Zoológico. Passeio descontraído no bairro mais extenso de Buenos Aires: Palermo. Além do Zoo, neste bairro localizam-se o Jardim Botânico, o Jardim Japonês e o Planetário Galileu Galilei. O Zoo é muito aconchegante e o show dos leões-marinhos é imperdível. É um passeio digno de durar o dia todo. Minha esposa, que dormiria de sapatos altos por considerar elegante, até foi obrigada a comprar um par de tênis, pois a distância percorrida a pé foi significante.

Ao anoitecer, fomos ao Tango Porteño, a melhor casa de tango para o turista que quer desfrutar o glamour desse estilo que até hoje ninguém sabe qual a origem. Para os aficcionados que querem conhecer o verdadeiro tango, sem pirotecnia, aconselhamos a Esquina Osvaldo Pugliese, no bairro San Telmo.

Durante nossa estada, imbuídos num clima romântico, atravessamos a cidade de Buenos Aires várias vezes durante o dia. De trem ou de ônibus, a pé ou de taxí, íamos conhecendo cada detalhe histórico da cidade e que foge ao turista comum. E a sua arquitetura permite-nos fixar o olhar em cada local e apreciar a riqueza de detalhes. A livraria El Ateneo é um exemplo típico.

Fomos ao Museu do Holocausto, pois creio que esta questão da intolerância, da xenofobia e de todas atrocidades cometidas a partir de 1933, têm ligação direta com o sofrimento suportado pelos meus antepassados. Afinal, existiram seis campos de extermínio massivo: Auschwitz-Birkenau, Belzec, Chelmno, Majdanek, Sobibor e Treblinka, todos localizados na Polônia. Um detalhe que me chamou a atenção foi a grande quantidade de judeus ortodoxos que transitavam nas ruas paralelas à avenida Pueyrredon.

Atravessamos a cidade de taxí e fomos parar no bairro de Belgrano. Este bairro não existi no mapa de nosso guia de bolso. A demora para chegar valeu a pena. Visitamos o Museu Sarmiento. Há muito tempo que tenho apreço por este presidente. Domingos Faustino Sarmiento Albarracín foi presidente da Argentina de 1868 a 1874. Ele foi o criador da educação pública no país. O povo argentino é muito culto e politizado. Eles prezam muito a história do país. Em cada quarteirão você esbarra, no mínimo, com duas livrarias. Tenho certeza que esta situação deve-se ao presidente Sarmiento. Se cada país da América Latina tivesse na respectiva história um presidente como ele, seríamos uma potência continental.

No dia seguinte, no bairro de San Telmo almoçamos no restaurante Manolo. Local escondido entre as ruas Bolívar e Conchabamba. As paredes são cobertas por postêres, fotos e adereços futebolísticos. A primeira foto que vejo é dos jogadores Norberto Alonso e Enzo Franchescoli abraçados. Os dois jogaram no River Plate. O torcedor argentino faz questão de citar os jogadores usando-se o nome completo, como Diego Armando Maradona, Leonel Messi e Angel Amadeo Labruna. Na mesma parede há outra foto com a formação do River Plate que foi campeã dentro do estádio do grande rival Boca Juniors, em 1955. O jogo terminou 2 x 1 para o River, que jogou com Mantegari, Rossi, Vernazza, Sívori, Walter Gómes, Labruna, Venini, Carrizo, Vairo, Zárate e Sola.

Falando de futebol, o passeio mais esperado foi o de domingo. Efetuamos reserva para assistir ao jogo Boca Juniors x Vélez Sársfield. Foi a primeira vez que minha esposa assistiu uma partida de futebol ao vivo. O jogo foi emocionante. O meio campista Riquelme ( Juan Román Riquelme ) teve uma atuação simplesmente magistral. Alertei a minha esposa de que ela presenciaria o porquê do futebol ser apaixonante. A inchada (torcida do Boca) não pára um segundo sequer. Incentiva e canta do começo ao fim, independente do placar do jogo. Foi uma tarde marcante para as nossas vidas. O Boca venceu por 3 x 2.

Outros locais foram visitados e que, oportunamente serão relatados em outra postagem, como: Puerto Madero, Jockey Club, Espaço Cultural Torquato Tasso, Café Tortoni etc.

Voltamos ao Brasil com o sentimento de ter aproveitado cada segundo dessa viagem, além da consolidação de nossa cumplicidade como casal. Ainda não desarrumamos as malas e já estamos pensando na próxima aventura.

E sempre juntos.

domingo, 27 de setembro de 2009

Mundo Fuleiro.

Há mais de cinco meses, estava eu parado em frente à antiga Faculdade de Medicina da Bahia, no Centro Histórico de Salvador, quando duas transeuntes passam à minha frente e uma delas solta a seguinte frase: " -- Eu não quero ter filho, pois este mundo está muito fuleiro para se viver.". Lembrei-me deste episódio com as notícias que foram retratadas na TV durante esta semana.

O primeiro caso abordado foi o de um garoto que formou com outros dois adolescentes uma quadrilha para efetuar assaltos. Na primeira tentativa foram pegos pela polícia e a mãe, dona Elza, indignada, ministrou uma surra no filho dentro da delegacia. Durante a cena, transmitida em cadeia nacional por vários canais, dona Elza mostrava para o delegado as próprias mãos calejadas em decorência da vida que leva como diarista para sustentar os três filhos que possui.
Na reportagem, alguns psicólogos foram consultados para opinarem sobre a atitude de dona Elza. Uma de suas patroas, pois dona Elza efetua faxina em dez residências diferentes, se solidarizou com a sua situação naquele momento difícil e intitulou a empregada como sendo um "pé de boi" para o trabalho. O filho que tentou cometer o assalto tem um computador comprado com o esforço da mãe.

No sul do país, as paredes de uma escola foram pintadas, em regime de multirão, no feriado do dia 7 de setembro. Na semana passada um aluno pichou a parede e foi obrigado, pela professora, a reparar o dano. O próprio aluno, durante o multirão, já havia premeditado que seria o primeiro a efetuar a pichação. Apesar da rispidez com que a professora tratou o aluno no episódio, o comportamento da mesma teve a anuência de 98% da população. A família do aluno entrou com processo contra a escola, pois alegou que o filho foi humilhado perante os colegas.

Para fechar a semana com "chave de ouro", outra tentativa de assalto foi veiculada em todos os canais de tv. O ladrão, no decorrer da fuga, usou a dona de uma loja como refém. Durante o processo de negociação com a polícia, um atirador de elite desfere um tiro certeiro na cabeça do meliante, que morre na hora. A população que acompanha o desfecho "in loco" aplaude a ação da polícia. O atirador é entrevistado e alega que a performance foi perfeita, pois seguiu à risca o manual operacional da corporação. Até o tiro foi planejado para alcançar o bulbo raquidiano, região do cérebro que, atingida por projétil, não permite qualquer tipo de reação por parte do assaltante. Após dois dias se recuperando do susto, a refém informa que foi a segunda vez que ela foi vítima de criminosos. Para tentar mudar a situação de violência que impera em todo o país, a família dela é voluntária em trabalhos sociais em comunidades carentes.

A criminalidade vem aumentando consideravelmente nos últimos anos. Ou será que o que aumentou foi a quantidade de informação sobre violência? Hoje temos a opção de registrar qualquer evento utilizando-se um simples celular. A briga de duas alunas na saída de uma escola, não se transformaria em notícia na semana retrasada, se não houvesse alguém registrando o fato. Mas fazendo uma análise mais profunda, verificamos que diversos fatores contribuem para a situação catastrófica que se encontra o nosso tecido social : distribuição desigual de renda, aumento populacional, automação maciça dos meios de produção, afavelamento vertiginoso nas grandes metrópoles, organização da máfia, famílias desestruturadas, tráfico de entorpecentes, apelo midiático incentivando o consumo etc.

O saudoso professor Hélio Santos via como uma das saídas para esta situação, a transformação do processo civilizatório. Platão já aventava o sonho utópico de uma sociedade mais justa por meio da educação com plena igualdade para todos. A primeira curva da nossa estrada é a educação universal. E naquela época Platão já considerava que o ser humano já nascia no seio de uma sociedade corrompida. Creio que a obra de Platão é bem atual. O grande místico Sathya Sai Baba foi muito feliz quando definiu o papel do educador como um propagador de conhecimento e virtude. Ele vê a corrupção nos pequenos gestos iníquos que ocorrem no dia a dia da família. Quando um pai pede para o filho inventar alguma desculpa para não atender alguém que está ao telefone, temos indícios da formação de uma péssima conduta social. Baba estabeleceu um método educacional focalizado nos Valores Humanos universais (Verdade, Retidão, Paz, Amor e Não-Violência).

Como estou adentrando na área de educação ambiental, com forte apelo à sustentabilidade, tento formar uma visão ampla e crítica de nossa civilização. Tenho uma percepção muito otimista quanto à possibilidade de mudanças. Sou capaz de citar vários exemplos de sucesso tanto em comunidades com alto risco social, como em grandes corporações. A sustentabilidade requer a melhor alternativa de desenvolvimento que contemple as variáveis políticas, econômicas, sociais e ambientais. Sendo assim, o trabalho deve ser bem abrangente. No processo de aprendizagem o ser humano deve ser trabalhado como um todo. Professores e alunos são participantes, não se percebe hierarquia funcional. Política, ecologia, direito, cidadania e filosofia são fundamentais para a grade educacional.

Quem sabe o mundo deixe de ser tão fuleiro!!!

" A pessoa só é livre se estiver associada a um esforço apaixonado e corajoso de transformação da realidade em que ela se transforma em sujeito e deixa de ser objeto." ( Paulo Freire).

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Ecologia e Educação.

O meio ambiente está intrinsecamente ligado a todas as variáveis que afetam o desenvolvimento do ser humano no planeta, pois o mesmo faz parte desse sistema. O modelo notadamente antropocêntrico de cultura, onde o homem é o ente que altera todo o equilíbrio para o atendimento de suas necessidades, provocando a deterioração dos vários ecossistemas, com a captação de materiais da crosta terrestre, o processo produtivo, o uso bem produzido e o posterior descarte, impactou adversamente na qualidade de vida das populações.

O perfil antropocêntrico é uma característica histórica e cultural. Com o aparecimento da espécie humana no planeta, há 3,5 bilhões de anos e o processo evolutivo, nos primórdios as necessidades eram supridas numa relação equilibrada com a natureza, isto é, utilizando-se apenas o suficiente para o atendimento das necessidades básicas. As necessidades sociais, políticas e econômicas foram mudando e a relação com a natureza sofreu alterações significativas.
As características históricas e culturais podem ser moldadas através do processo educativo. Porém, deve haver uma transformação desse modelo, pois a profundidade da mudança deve afetar o processo civilizatório. As características e métodos atuais não acarretarão as transformações necessárias. A educação é o tópico mais importante para a mudança. E toda relevância, tratando-se de mudanças socioambientais, devem ser tratadas com rigor. O modelo cartesiano de ensino, voltado para o mercado, não possibilita a formação de seres humanos com visão crítica, radical ( no sentido de raiz, doxa ) e holística.

O grande potencial de transformação social da educação não acontece no Brasil. Existem "ilhas" escolares que são as escolas de luxo/particulaes e também grande aterro sanitário de ensino onde depositamos as crianças pobres. E as escolas privadas transformam-se em lugares de mero adestramento intelectual , onde os alunos são forjados ao ensino que possibilita a sua entrada numa faculdade, obedecendo-se a grade curricular arcáica.

As escolas são lugares abandonados do ponto de vista intelectual. E qualquer transformação terá resultado nas gerações posteriores, pois estes serão os tomadores de decisão. E qualquer decisão que não contemple todos os envolvidos (os stakeholders), poderá ser um prejuízo irreversível para a humanidade. É a educação que poderá desenvolver este lastro entre homem-natureza.

E como diz o pensador H. G. Wells: "A história humana é cada vez mais uma corrida entre a educação e o desastre".

O Ano da França no Brasil.

O Ano da França no Brasil é uma iniciativa do governo dos dois países, com o objetivo de aprofundar as relações bilaterias no âmbito cultural, acadêmico e econômico.
Coincidentemente e acatando a sugestão do meu amigo luso-brasileiro Roque, inicio a leitura do polêmico livro "O Vermelho e o Negro" , do francês Stendhal. A literatura francesa, assim como o cinema frânces, são emblemáticos para mostrar o perfil psicológico deste povo. É impossível não comparar os diversos personagens que representam estas artes. A senhora de Rênal, personagem principal do livro de Stendhal, e que se apaixona pelo jovem Julien, é muito mais incisiva e seca que a Madame Bovary, personagem histórico de Gustave Flaubert.

Faz quase um ano que ganhei de Izadora, uma amiga de infância de minha esposa e que por coincidência fala francês e hoje vive no Canadá, a obra completa de Honoré de Balzac. Este escritor francês foi de uma fecundidade extrema. Enquanto tento escrever um pequeno texto que começou a ser elaborado há dois dias, Balzac escrevia incessantemente por mais de 16 horas diárias. Ele morreu de tanto escrever. Em certa ocasião ele refez uma única página por dezoito vezes até atingir a perfeição que ele almejava. E no começo da carreira era considerado um escritor medíocre ( não querendo traçar o mesmo destino, é como eu me sinto nessa incursão bloguista ). As suas obras foram condensadas com o título "A Comédia Humana", que reúne 88 livros. Para quem deseja conhecer os meandros da imprensa e o jogo de interesse que permeia este poder da sociedade, sugiro a leitura de "Ilusões Perdidas". Este livro é fantástico.

No circuito alternativo de cinema, está em cartaz o filme "Há tanto tempo que te amo", com Kristin Scott Thomas no papel de Juliette Fontaine. Filme escrito pelo diretor francês Philippe Claudel, considero o melhor e mais doloroso filme exibido neste ano. A música que está no término da película, "Dis, quand reviendras-tu" tem uma letra bastante reflexiva de tudo que foi mostrado neste drama. Sugiro assistir ao vídeo desta música no youtube, cantadas ou por Bénabar ou por Jean Louis Aubert.

Para meu próprio deleite sou presenteado pela minha esposa com o livro "Um Homem Livre", que considero a biografia definitiva de Pierre Verger. Este personagem é bastante significativo se formos falar da relação Brasil-França. Verger teve uma infância característica da classe burguesa francesa do século passado. Ele percebeu que não suportaria passar o resto da vida vivendo em uma sociedade a qual as pessoas passavam o tempo tentando impressionar umas às outras. Ele intitulava os seus amigos de mesma classe social como papagaios instruídos. Verger frequentava com alguns amigos, em Paris, o Baile das Antilhas, onde a gente pobre originária dessa região dançava nos fins de semana e que foi a sua primeira referência ao amor pela cultura africana. Com uma máquina fotográfica em mãos e o desejo de liberdade, Pierre Verger roda o mundo, algumas vezes a sua viagem é feita em cima de uma bicicleta. Por nossa sorte ele se encanta com a Bahia e vive aqui o resto de sua vida. Seu nome muda para Pierre "Fatumbi" Verger, nome este consagrado pelo contato que tem com o candomblé. Foi amigo íntimo de Jorge Amado e de Carybé, que era um argentino também radicado na Bahia.

Por tudo que foi explanado, estou quase me matriculando em algum curso de francês. Para fechar com chave de ouro este intercâmbio cultural, estou estudando com afinco todos os livros básicos do Espiritismo e que foram codificados por Allan Kardec, francês de Lyon.
Mas deixo para outra ocasião o comentário que tenho para fazer sobre o clube de futebol PSG - Paris Saint-Germain.

Au revoir.

A Capoeira, o Futebol e o Blues.

Trabalhando por dois anos na região do Centro Histórico de Salvador, percebi algumas mudanças em decorrência desse processo intitulado de globalização. Esta mudança se faz nítida no jogo da capoeira. Esta percepção tem similaridade com o que ocorreu também com o futebol brasileiro nos últimos anos. Alguns capoeiristas de Salvador são adeptos do vigor físico exarcebado com ênfase na prática da musculação e treinamento de outras modalidades. Observando alguns grupos que se apresentam no Terreiro de Jesus, verifica-se que a melhor técnica dessa luta foi praticamente abandonada. Os golpes são desferidos sem a preocupação de alcançar o objetivo principal, que é acertar o adversário. Concorde que a velocidade com que são executados é enorme, porém são ineficientes. Tem-se a impressão de estar assistindo a um jogo de videogame.

O futebol brasileiro segue a mesma linha de atuação. Os jogadores são verdadeiras máquinas atléticas monitoradas por uma avalanche tecnológica de análises e gráficos. Calcula-se a velocidade média de cada jogador e quantos minutos eles retêm a bola. A técnica foi deixada para o segundo plano. Antigamente os jogadores tinham uma qualidade técnica absurda. Os fundamentos básicos desse jogo chamado futebol eram treinados exaustivamente. Eu tive o privilégio de ver Ademir da Guia jogar no Palmeiras. O seu epíteto era "Divino Maravilha". A forma como ele dominava a bola era simplesmente fantástica. Ele ficou nove meses sem errar um passe sequer. Hoje a história é bem diferente. Alguns jogadores não tem a menor intimidade com a bola. Os fundamentos básicos são praticados com bastante dificuldade. Chute, passe, lançamento, cabeceio não são familiares para vários deles. O jogo se tornou tão mecanizado que as principais características do jogador brasileiro (malícia, malandragem, improviso) foram menosprezadas. A ida desses "craques" para a Europa amolda-os a um sistema de jogo castrador. Não existe o atrevimento de tentar o drible (recurso que tem origem na ginga da capoeira e que é congênito da miscigenação do povo brasileiro).

Fazendo um paralelo com o jogo da capoeira, é hilário observar a dificuldade que o europeu tem para a ginga e as danças afro-caribenhas. O Centro Histórico de Salvador é laboratório aberto para observar esta situação. O encanto desse jogo possibilitou que a capoeira fosse difundida para mais de 120 países. Mas a diferença estética é notória. Porém não podemos perder a essência desse jogo. Ele não pode estabelecer padrões advindos de outras artes marciais. Os elementos da capoeira primitiva são tão necessários como o jazz e o blues das antigas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos. O virtuosismo e a improvisação do "bebop", uma corrente do jazz, foi uma forma de impedir a hegemonia do músico branco. E a síncopa do "bebop" teve o mesmo efeito do drible desconcertante do primitivo jogador de futebol brasileiro. Depois que Muddy Waters foi para Chicago e "eletrificou" os instrumentos acústicos, alguma coisa preciosa, típica da passionalidade melancólica do negro, também ficou para trás.

A globalização é irreversível, porém as nossas características natas devem ser preservadas e respeitadas. Existe dinamismo na absorção de outras culturas e técnica, porém devemos nos preocupar em não perder a essência que nos diferenciam nos momentos decisivos. A rasteira e o drible podem ser fatais para dominar o adversário.

Dicas Gastronômicas de Salvador parte 01

Restaurante Axego.
Para quem está visitando a cidade de Salvador-BA, a minha sugestão gastronômica é o restaurante Axego, do meu amigo Manoel dos Santos Pereira, que fica localizado no Centro Histórico. É a culinária típica do Recôncavo Bahiano. Existe uma variedade enorme de crustáceos, peixes, carnes e aves. As minhas sugestões são: carne de fumeiro ou moqueca de aratu.

Na visita é imprescindível conversar com o Manoel. Ele irá explicar como teve início o restaurante. Uma muqueca de camarão, muito bem servida para duas pessoas, saí por menos de R$ 50,00.
endereço: rua: João de Deus - Pelourinho - próximo à Igreja de São Domingos.

O Rei do Pernil
Há 80 anos no mesmo endereço, a casa se especializou nos sanduíches de pernil, feitos por Manolo Moinho. Fica próximo ao plano inclinado Gonçalves. Com R$ 5,00 você degusta um sanduíche de pernil com queijo e um suco refrescante de caju. Esta é a minha refeição quando freqüento o local.

endereço: rua Conselheiro Saraiva, 32 - Comércio. tel: 71 3242-8270 ( 8h00 as 18h00 e sáb até 12h00 ).

John John Café
Para este local, não vou fazer nenhum comentário. Visite, confira e depois dê sua opinião. Levei a minha esposa e ela ficou simplesmente encantada.

endereço: av: Estados Unidos, 392 - Comércio. tel: 71 3327-0102 ( 7h30 as 20h00 e sáb até 15h30 ).
Boa diversão.