Há mais de cinco meses, estava eu parado em frente à antiga Faculdade de Medicina da Bahia, no Centro Histórico de Salvador, quando duas transeuntes passam à minha frente e uma delas solta a seguinte frase: " -- Eu não quero ter filho, pois este mundo está muito fuleiro para se viver.". Lembrei-me deste episódio com as notícias que foram retratadas na TV durante esta semana.
O primeiro caso abordado foi o de um garoto que formou com outros dois adolescentes uma quadrilha para efetuar assaltos. Na primeira tentativa foram pegos pela polícia e a mãe, dona Elza, indignada, ministrou uma surra no filho dentro da delegacia. Durante a cena, transmitida em cadeia nacional por vários canais, dona Elza mostrava para o delegado as próprias mãos calejadas em decorência da vida que leva como diarista para sustentar os três filhos que possui.
Na reportagem, alguns psicólogos foram consultados para opinarem sobre a atitude de dona Elza. Uma de suas patroas, pois dona Elza efetua faxina em dez residências diferentes, se solidarizou com a sua situação naquele momento difícil e intitulou a empregada como sendo um "pé de boi" para o trabalho. O filho que tentou cometer o assalto tem um computador comprado com o esforço da mãe.
No sul do país, as paredes de uma escola foram pintadas, em regime de multirão, no feriado do dia 7 de setembro. Na semana passada um aluno pichou a parede e foi obrigado, pela professora, a reparar o dano. O próprio aluno, durante o multirão, já havia premeditado que seria o primeiro a efetuar a pichação. Apesar da rispidez com que a professora tratou o aluno no episódio, o comportamento da mesma teve a anuência de 98% da população. A família do aluno entrou com processo contra a escola, pois alegou que o filho foi humilhado perante os colegas.
Para fechar a semana com "chave de ouro", outra tentativa de assalto foi veiculada em todos os canais de tv. O ladrão, no decorrer da fuga, usou a dona de uma loja como refém. Durante o processo de negociação com a polícia, um atirador de elite desfere um tiro certeiro na cabeça do meliante, que morre na hora. A população que acompanha o desfecho "in loco" aplaude a ação da polícia. O atirador é entrevistado e alega que a performance foi perfeita, pois seguiu à risca o manual operacional da corporação. Até o tiro foi planejado para alcançar o bulbo raquidiano, região do cérebro que, atingida por projétil, não permite qualquer tipo de reação por parte do assaltante. Após dois dias se recuperando do susto, a refém informa que foi a segunda vez que ela foi vítima de criminosos. Para tentar mudar a situação de violência que impera em todo o país, a família dela é voluntária em trabalhos sociais em comunidades carentes.
A criminalidade vem aumentando consideravelmente nos últimos anos. Ou será que o que aumentou foi a quantidade de informação sobre violência? Hoje temos a opção de registrar qualquer evento utilizando-se um simples celular. A briga de duas alunas na saída de uma escola, não se transformaria em notícia na semana retrasada, se não houvesse alguém registrando o fato. Mas fazendo uma análise mais profunda, verificamos que diversos fatores contribuem para a situação catastrófica que se encontra o nosso tecido social : distribuição desigual de renda, aumento populacional, automação maciça dos meios de produção, afavelamento vertiginoso nas grandes metrópoles, organização da máfia, famílias desestruturadas, tráfico de entorpecentes, apelo midiático incentivando o consumo etc.
O saudoso professor Hélio Santos via como uma das saídas para esta situação, a transformação do processo civilizatório. Platão já aventava o sonho utópico de uma sociedade mais justa por meio da educação com plena igualdade para todos. A primeira curva da nossa estrada é a educação universal. E naquela época Platão já considerava que o ser humano já nascia no seio de uma sociedade corrompida. Creio que a obra de Platão é bem atual. O grande místico Sathya Sai Baba foi muito feliz quando definiu o papel do educador como um propagador de conhecimento e virtude. Ele vê a corrupção nos pequenos gestos iníquos que ocorrem no dia a dia da família. Quando um pai pede para o filho inventar alguma desculpa para não atender alguém que está ao telefone, temos indícios da formação de uma péssima conduta social. Baba estabeleceu um método educacional focalizado nos Valores Humanos universais (Verdade, Retidão, Paz, Amor e Não-Violência).
Como estou adentrando na área de educação ambiental, com forte apelo à sustentabilidade, tento formar uma visão ampla e crítica de nossa civilização. Tenho uma percepção muito otimista quanto à possibilidade de mudanças. Sou capaz de citar vários exemplos de sucesso tanto em comunidades com alto risco social, como em grandes corporações. A sustentabilidade requer a melhor alternativa de desenvolvimento que contemple as variáveis políticas, econômicas, sociais e ambientais. Sendo assim, o trabalho deve ser bem abrangente. No processo de aprendizagem o ser humano deve ser trabalhado como um todo. Professores e alunos são participantes, não se percebe hierarquia funcional. Política, ecologia, direito, cidadania e filosofia são fundamentais para a grade educacional.
Quem sabe o mundo deixe de ser tão fuleiro!!!
" A pessoa só é livre se estiver associada a um esforço apaixonado e corajoso de transformação da realidade em que ela se transforma em sujeito e deixa de ser objeto." ( Paulo Freire).

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