sábado, 24 de agosto de 2013

Ana Beatriz - Primeiro Aniversário.

Ana Beatriz,                                                                                                       25/08/2013.

        Hoje você está completando um aninho de vida. A chegada desta data comprova que o tempo é deveras implacável, pois você cresceu numa velocidade assustadora. Faz um ano que você adentrou pela primeira vez a porta de casa e nos parecia um ser tão frágil e tão delicado. E ontem você já estava na sala jogando a sua motoquinha, que é quase do seu tamanho, contra a parede com toda força. A sua mãe sente muito o fato de você crescer e na mesma medida estarmos nos distanciando da sua feição tenra inerente aos seres de pouca idade. Chegamos à conclusão que são fases diferentes e cada uma com o seu encanto correspondente, porém a sua fase de bebê deixará muita saudade.

        Ana Beatriz, você trouxe muita felicidade ao nosso lar. O sentimento de família constituída é muito forte. E a sua chegada provou que existia uma lacuna muito grande a ser preenchida. A emoção de presenciar a sua vinda ao mundo é indescritível. O seu gesto de colocar a mãozinha na mamãe após o nascimento nunca sairá de nossas memórias.

         Ontem a sua mãe foi fazer as unhas pela primeira vez após o seu nascimento. Esta demora não foi por desleixo. O motivo principal é o excesso de carinho que ela tem por você. Falando nisso, a sua mãe sempre me surpreendeu. Ela é uma esposa querida e paciente. Ela é uma mulher sensacional. Mas estas qualidades, mesmo engrandecedoras, são ofuscadas quanto ao jeito que ela tem como mãe. Eu sabia que a relação de vocês duas seria muito vigorosa, mas a sua mãe é extremamente zelosa com o seu bem estar.

         A nossa casa e as nossas vidas foram totalmente dominadas por você. Em todos os cantos há algo que lembra a sua presença. Nós temos muita satisfação em ficar olhando as bagunças e os rastros que você deixa pela casa antes de dormir.  Tudo que é pensado e planejado em família tem um único propósito: você.

         No início do mês nós passamos férias em Porto Seguro. Você aproveitou bastante e foi muito companheira. Temos a certeza que faremos muitas viagens memoráveis.

         Creio que em poucos dias você, minha filha linda, já estará andando sem a nossa ajuda. Hoje você só nos deixa segurar em uma de suas mãos. Não vejo a hora de poder correr atrás de você na pracinha. Durante a viagem à Porto Seguro, tivemos uma aproximação bem maior.

         Hoje haverá uma festa muito linda para comemorar o seu aniversário. A sua mãe e a sua madrinha pensaram em cada detalhe para que o evento seja bastante marcante. A sua roupita é linda. O seu pai estará bem atento quanto à aproximação de possíveis pretendentes. Os seus parentes vieram de longe para participar da sua festa. A sua vovó e a sua tia de São Paulo também vieram.

         Algumas datas já são marcantes na sua vida: 20/03 e 22/03 - aparecimento dos dentinhos, 02/04 - primeira papinha salgada, 04/04 - primeira vez que você ficou em pé sozinha, 01/05 - primeira escovação de dente, 09/08 - primeira viagem de avião e primeira vez que falou a palavra "papai".

         Filha, parabéns, meu amor.
         Nós te amamos muito.
        
        

domingo, 12 de maio de 2013

Eu amo a minha mãe.

Esta postagem foi uma solicitação de Ana Beatriz de Almeida Fernandes Mohylovski, minha filha. Ela falou-me da mãe, Shirley Mohylovski. É fruto de uma conversa que tivemos ontem.

Mamãe.

Hoje é o segundo ano que passo o Dia das Mães com você. No primeiro ano eu estava dentro da sua barriguinha e estava bem quentinho. Hoje, eu fico nos seus braços que é o lugar mais confortável e aconchegante do mundo.

Mas eu pedi para o papai escrever sobre a data de hoje, pois eu ainda não conheço todo alfabeto. Eu já sei falar do meu jeitinho, mas ainda não dá pra escrever. Mas sei que logo, logo eu vou aprender. Você ajuda muito no meu desenvolvimento. Eu já sabia acender a luz quando tinha quatro meses. E a mamãe já está me ensinando a passar o dedinho no smarthphone. Eu estou quase conseguindo acessar os vídeos da Galinha Pitadinha e do Patati Patatá.

Mamãe, eu sou um bebê muito feliz porque tenho você como a minha mamãe. Eu já sentia quando estava na sua barriguinha que eu seria bem cuidada. E você, mamãe, além de cuidar muito bem de mim, me dá muita segurança, carinho e proteção. Eu quero mergulhar da cama para o chão, mas você está sempre segurando o meu pezinho para evitar que eu me machuque. Mamãe, mergulhar para o chão é perigoso? Parece ser uma coisa tão simples!!!!

Faz oito meses que você não dorme direito. Eu percebo que durante a noite a mamãe acorda para ver se está tudo bem comigo. E ainda fica me olhando como estivesse contemplando a cria. Nesta hora, eu sinto uma energia enorme que nem o barulho do ronco do papai atrapalha. E quando eu acordo de madrugada para comer e traquinar, mamãe nunca reclama. E isso me faz feliz.

Mamãe, você me traz muita alegria e a minha primeira gargalhada foi por causa das suas brincadeiras. Eu sempre vou sorrir pra você, mamãe. E o meu sorriso é porque você existe. Só por isso.

Já o papai, tenta de tudo para que eu ache graça das brincadeiras dele. Eu dou um sorriso social só prá que ele não fique desapontado. Acho que eu só vou entender as palhaçadas dele quando eu tiver 5 anos.

Mamãe, eu sou um bebê que tem muita sorte. Além de você, eu tenho as minhas vovós que também cuidam de mim. A vovó de São Paulo, mãe do papai, veio pra ficar comigo e eu já estou bem acostumada com ela. A outra vovó está fazendo um tour e está morrendo de saudades de mim. E hoje é o dia delas também, pois são as mães das pessoas mais importantes da minha vida.

Mas mamãe, eu quero só falar de você. Eu quero agradecer por nunca me abandonar e sempre lutar pelo meu bem estar. Mamãe, você é muito especial para mim. Eu te amo até no momento que você me dá aquele remédio com gosto de prego enferrujado que eu odeio. E a minha alegria é estonteante quando você me arruma para passear na pracinha.

Mamãe, eu te amo muito.

Parabéns pelo seu dia.

Beijos da Ana Beatriz, o bebê mais feliz do mundo.

 

sábado, 18 de agosto de 2012

Recomendações para Ana Beatriz II

Filha Querida,

Hoje, 18/08/12,  falta uma semana para o seu nascimento. O papai está muito calmo e a mamãe está bastante ansiosa, como sempre. O seu quartinho já está pronto e ficou muito bonito. É tudo cor de rosa. E hoje tiramos várias fotos do barrigão da mamãe.

No próximo sábado vamos sair bem cedinho para a maternidade. Você irá nascer entre 9h e 10h. A sua malinha e a mochila da mamãe já estão prontas. Tem um monte de gente que estará presente nesse evento marcante para as nossas vidas. O papai vai assistir e dar assistência para a mamãe. A tia Sheyla vai assistir e dar assistência para o doutor Geninho.

Eu já programei as férias para ficar com você e limpar todo cocô e xixi que você produzir. Meu amor, se você verificar a quantidade de fraldas que já foram compradas, iremos ter bastante trabalho. Mas fique tranquila, que vai dar tudo certo.

Você foi muito boazinha durante a gestação. Não deu nenhum trabalho e não tivemos nenhum problema. O papai dormiu bem todos esses meses. A mamãe reclamava que não tinha posição confortável para dormir com o barrigão, mas hoje pela manhã ela estava até respolegando e dormindo profundamente. Espero que você seja boazinha depois que nascer.

Ontem a mamãe foi fazer ultrasom e o resultado foi normal. Você tem o fêmur muito grande. E por várias vezes nós ficamos imaginando como será o seu rostinho. Eu acho que você será igual a mamãe quando ela era pequena.

Os seus padrinhos, titio Thenison e tia Keninha, também estarão presentes no seu nascimento. Ontem nós recebemos uma ótima notícia, pois os seus padrinhos permanecerão morando em Salvador e acompanharão o seu crescimento. O Arthur, que é o filho deles, não irá no próximo sábado. Ele acha um tédio estes programas de adulto. Ele tem oito anos e me deu um presente no dia dos pais.

Meu amor, você será do signo de Virgem e no horóscopo chinês, Dragão, igual o papai. O nativo de dragão é magnânimo, cheio de vitalidade e de força. O dragão é uma bateria carregada de energia. A sua impetuosidade, ânsia e zelo quase religioso podem arder como o próprio fogo que o dragão deita pela boca. Tem o potencial para realizar coisas grandes, quem é afortunado como o dragão gosta de executar as coisas em grande escala.

Hoje eu queria tirar uma foto deitado no seu bercinho, mas a mamãe não deixou. Quando você chegar, vou tirar esta foto com você. A mamãe só vai saber depois. Eu adoro fazer traquinagem e prometo que vou te ensinar várias.

O papai já está reservando o dinheiro para comprar os seus abadás no carnaval de Salvador. Minha filha, por favor, quando você crescer e sair nesses blocos, tenha a consciência que o mundo não irá acabar. Ou seja, nada de ficar beijando igual um doida. Comporte-se e leve sempre o borrifador para higiene bucal. E ouça os meus conselhos. Somente os meus conselhos, pelo menos para estas festas.

Meu amor, você irá nascer numa época muito conturbada e caótica. Estamos vivenciando transformações radicais em todos os ramos e atividades humanas. O desafio é enorme: aumento populacional, mudanças climáticas, escassez de alimentos, energia e matéria-prima. Apesar de todos os problemas, temos um gama enorme de oportunidades a serem exploradas. Espero que você seja uma pessoa que contribua para melhorar a situação do nosso planeta.

O papai vai fazer questão de te levar e buscar nas festinhas de sua infância e nas baladas de sua adolescência. Prometo estacionar distante da entrada. E também prometo levar todos os seus amigos para casa, caso seja necessário e eles não vomitem dentro do carro.

Filha, a sua mamãe está passando creme hidrantante na barriga todos os dias. E você adora ficar encolhidinha no lado direito. E dá até para saber em qual parte do seu corpinho estamos tocando.

O papai não vai ter nenhuma dificuldade para acordar de madrugada, quando você chorar. Quando eu morava em São Paulo, tinha que acordar duas vezes, a 1h e 5h da manhã, para abrir a janela do quarto, pois a gata branca e preta queria entrar e depois sair de casa. E eu não reclamava.

Meu amor, vem logo.

Estamos esperando.

Te amo.








domingo, 29 de julho de 2012

Recomendações para Ana Beatriz - I



Recomendações para Ana Beatriz. 29/07/2012.

Ana Beatriz de Almeida Fernandes Mohylovski.

local de nascimento: Hospital Português - Salvador - Bahia.

data de nascimento: 25/08/2012. (previsto). 

Minha filha querida.

Estamos muito próximos da data do seu nascimento. O papai esteve na última sexta-feira na consulta para conhecer quem será a primeira pessoa que colocará as mãos em você. O doutor Geninho é um cara super profissional e muito humano. Ele está lendo um livro de Dalai Lama. Na agenda dele já está reservado o dia 25 de agosto para o trabalho de parto do seu nascimento. A sua mãe está muito ansiosa para este momento. O papai também não vê a hora de você chegar. O seu quartinho está quase pronto. Estou aproveitando os últimos momentos no meu escritório para escrever estas recomendações antes mesmo da sua chegada. O escritório está montado no seu futuro quarto. O local que estou agora será utilizado para trocar as suas fraldas. Perdi o local de trabalho, porém estamos ganhando (eu e sua mamãe) um significado maior para trabalharmos cada vez mais e com bastante afinco para o seu desenvolvimento. 

O seu nome foi escolhido pela mamãe. Eu aceitei e quase tinha convencido de chamá-la Annie Besant. A rejeição a este nome foi enorme, mas espero que você conheça a história dessa londrina. Outro nome que foi bem cotado e que eu gostei muito foi Sofia. Caso o papai te chame de Beatrice (em italiano) é que alguma coisa está errada. Fique atenta. 

Filha querida, já vou adiantando que você será muito mimada. Sua mãe promete de beijar e apertar ardorosamente. A nossa vida será um balaio de gato. Estamos todos preparados para a sua chegada. Eu queria dar-lhe algumas recomendações que creio sejam necessárias: 

- Nunca aceite balas e doces dadas por pessoas estranhas. 

- Evite falar que você é baiana. As pessoas irão pensar que você quer ser convencida. Nascer aqui já é uma garantia de 90% de felicidade e este fato poderá incomodar muita gente. E você vai perceber que o baiano “tira onda”. 

- Tenha o prazer e a consciência de ser você mesma. Siga a sua intuição, pois ela será muito útil. A felicidade que o seu pai e a sua mãe alcançaram é fruto de decisões tomadas por sentimentos e convicções. 

- Já vou adiantando que a felicidade é fruto do seu esforço. O que vai facilitar o seu trabalho é ter nascido na Bahia e no seio de uma família muito harmônica. Os filhos são o reflexo do relacionamento dos pais. Filha, você vai perceber que a vida é constituída de vitórias e derrotas. Utilize as derrotas para aumentar o seu aprendizado. Quanto ao aprendizado! Este não terá fim. 

- Respeite a mamãe e o papai. Você será educada a perceber que todos os seus atos demandarão um resultado e várias consequências. Pense antes de agir. Caso você não obedeça aos seus pais, haverá um banquinho aqui em casa, onde você ficará por 10 minutos sentada e refletindo sobre o seu erro. Você não levará uma palmada sequer. A reflexão é o ato de curvar-se para verificar a situação de outro ângulo. Se algum dia o seu pai sentar ao seu lado nesse banquinho, informo que não será um gesto de solidariedade, mas alguma coisa errada que o seu pai fez para a sua mãe.  

- Você foi abençoada por pertencer a uma família muito grande. Você tem duas avós e um avô.

A sua avó que mora em São Paulo e que é a mãe do seu pai, virá para a Bahia no dia 05 de setembro pra te conhecer. Ela está muito bem e graças aos espíritos de luz, recuperou a saúde e será presenteada com o seu nascimento. O seu avô, pai do seu pai, nos deixou há 25 anos e caso o horário do parto não coincida com algum páreo do hipódromo de Cidade Jardim, ele estará presente espiritualmente. O seu tio, que mora com ela e é irmão do papai, não virá porque precisa cuidar dos cachorros e dos gatos. Filha querida, espero que você tenha muitos bichinhos na sua vida. Pretendo adquirir um gato para dormir com você no bercinho. Falando nisso, o seu berço é tão grande que até cabe a casinha do gatinho e as cumbuquinhas para água e ração. 

Os seus avós, pais de sua mãe, estão em Itabuna e já confirmaram que estarão presentes no Hospital Português. Tem também a sua tia Sheyla, casada com o tio André e que acabaram de ter o seu priminho Matheus (o Tonho). Seu primo não tem nem dois meses e já dá pra perceber que será amansador de touro bravo. Quando ele completar um ano de idade, darei de presente um estilingue. E com dois anos já pretendo presenteá-lo com uma espingardinha de chumbo. Na última quinta-feira eu fiz o orçamento e já sei que um estojo com 100 balas de chumbo custa R$ 18,00. 

Filha, a nossa família tem muitos parentes. Todos são legais. Espero que você seja muito querida por eles. Uma parte mora na Bahia e a outra parte está em São Paulo. 

- Filha, sejas digna e justa de ter a amizade das pessoas. Ontem nós comemoramos o aniversário da sua mãe e a maioria dos convidados eram amigos de infância. São pessoas que nós estimamos muito. E amizade é uma palavra que tem um significado muito forte. Ela só é consistente por dois fatores: tempo e confiança. 

- Ana Beatriz, sempre pratique esporte. O doutor Cleber falou que você será muito alta. Se você escolher ser jogadora de vôlei, explore bastante o bloqueio.  

- Pretendo direcionar a sua educação usando o modelo judaico. Eu queria que você crescesse dentro dos ditames antroposóficos, mas tive que abandonar esta ideia para que eu não viesse a ser taxado de lunático. O sistema judaico é interessante e incentiva o questionamento. Nada é imposto e tudo é argumentado. Filha, espero ajudar na sua formação como ser humano. Não pretendo direcioná-la para atender somente as demandas do mercado. Já vou adiantando que a cobrança na sua educação será enorme. O dever de casa é um compromisso assumido. E se chorar ou resmungar vai direto para o banquinho.  

- Filha, aconselho que você leia muitos livros. Você irá descobrir um mundo fantástico e não será uma adolescente que se expressará por meio de sinais monossilábicos. 

- Ana, na última semana ocorreu a abertura das Olimpíadas de Londres. O estádio estava lotado e todos cantaram a música Hey Judy, composta por Paul McCartney. Você vai saber muito bem quem é esse cara e vai perceber que tudo que é bom é eterno. 

- Quando o papai chegar do trabalho e a gente brincar de casinha, faça bastante comida e não se preocupe com o tempero, porque o papai come até pedra.  

- Meu amor, no carnaval do próximo ano você estará com seis meses. O papai vai desfilar no Filhos de Gandhi e você vai fantasiada de baianinha no meu colo e na corcunda. A mamãe vai tirar as fotos e você já vai se acostumando com a maior festa do planeta.   

Ana Beatriz, vem logo. Venha para o nosso ninho. 

Te amamos muito.



sábado, 6 de agosto de 2011

Passar por ela.

Saio do ônibus cujo destino é o bairro do Trobogy e deparo-me com toda aquela estrutura de aço e placas de concreto de alto desempenho. O movimento é muito pequeno para o horário. Afinal, o meu G-shock "design by China" comprado por vinte reais, ainda marca 5h52. Aquela estrutura cheia de ramificações remete-me ao saudoso zoólogo Mário Autuori, que ganhou o prêmio máximo no programa "Oito ou Oitocentos", apresentado na TV Globo pelo ator Paulo Gracindo. Mário Autuori era um especialista em formigas. E durante uma das 17 apresentações no referido programa, foi mostrada a rotina desse professor no Instituto Biológico. Para aprimorar o estudo no comportamento das formigas, havia uma parafernália constituída de vários tubos de vidro que descrevia a vida em comunidade.


A passarela que liga o Shopping Iguatemi ao Terminal Rodoviário de Salvador lembra muito esse invento do Instituto Biológico. A vida flui cotidianamente e numa velocidade avassaladora. Quando você coloca o primeiro pé no chão da passarela, tem-se a impressão de que você está sendo empurrado pela própria necessidade de chegar ao outro lado. Talvez pela própria simetria do corpo humano, você automaticamente trafega pelo lado direito. O rebelde que tenta desobedecer este fluxo é castigado pelas inúmeras "topadas" voluntárias do contra-fluxo.


Outro ponto interessante é a regularidade de alguns transeuntes. Dependendo do horário, a cena é muito parecida com o dia anterior. Tem um senhor deficiente que tem ponto fixo para a mendicância num ponto estratégico. Toda vez que ele estende a mão para pedir esmola e se depara com a minha pessoa, ele recolhe a mão bruscamente e joga a mesma para trás, demonstrando vigorosamente o quanto eu sou avarento. Afinal, são quase dois anos que atravesso aquele local sem nunca ter lhe dado um níquel descascado.


Na extremidade que acessa o terminal rodoviário é uma verdadeira família de camelôs. O rapaz que vende CD pirata tem toda a discografia planetária. Qualquer dia vou encomendar o CD de Aston Ben Carlyle só pra ver o resultado. E ainda vou prometer pagar o dobro do valor, ou seja, 4 reais.


Toda sexta-feira, final de tarde, é dia da descompressão. As barracas que vendem churrasquinho de gato ficam abarrotadas de trabalhadores. A cerveja corre solto. Na Bahia, o termo que é utilizado nesta ocasião é "comer água"(consumir muita cerveja). O local fica intransitável. E todos se conhecem. O assunto preferido é futebol e mulher. O baiano tem uma coisa muito saudável que é a chamada "pilhéria" (galhofa, troça, zombaria). Já vi pessoas tratando um policial em serviço por "seu corno".


Há alguns anos, próximo ao Natal, houve a confluência de compradores do Shopping Iguatemi, acrescido dos membros da Igreja Universal do Reino de Deus e os cidadãos com destino ao terminal para viagem. A passarela ficou simplesmente entupida, sendo necessária a intervenção do Corpo de Bombeiros. Creio que ninguém tenha se machucado.


Vai chegar o dia em que o IPHAN irá declarar a passarela como patrimônio histórico e cultural da Bahia. Espero que até esse dia eu tenha descoberto quem é esse tal de Aston Ben Carlyle. Esse nome veio na minha cabeça do nada.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Comentários de Um Ouvinte.

Creio que tenha sido apenas um sinal de protesto, mas após ouvir diariamente a colunista da BandNews, Inês de Castro, não resisti e enviei para ela o meu comentário, como segue:

Inês de Castro, boa tarde.

Sou paulistano e moro em Salvador há dois anos. No meu veículo só ouço a rádio BandNews. E tenho alguns comentários sobre a sua coluna, como segue:

O ouvinte que ainda não tem filho e pretende tê-lo, vai pensar duas vezes antes de tomar esta decisão. Percebo que o processo educativo que você apregoa se mostra muito complicado. E esta complicação afetará sensivelmente a personalidade do educando e, em menor grau, a dos pais. Creio que, se consultássemos o líder indígena Marcos Terena, este processo seria muito mais fácil. Em todas as situações que você coloca sobre educação e comportamento, sempre existe algum complicador ou alguma restrição. Até o ato de colocar uma blusa numa criança é altamente estressante.

Em praticamente todos os aspectos da vida, no seu ponto de vista, existe um senão, um, porém, um alerta, um não. Eu compreendo que isso é uma verdade, porém no seu caso estas variáveis são bastante significativas. Eu não sei se você tem filhos, mas imagino a quantidade de conselhos que você deve dar já pensando no primeiro relacionamento sexual dele. Vislumbro um adolescente chegando ao primeiro encontro com um tratado dantesco (em PowerPoint) descrevendo o que não se deve fazer e todas as recomendações passo a passo. Confesso que eu nunca tive este tipo de conselho por parte dos meus pais. Na minha geração, os orientadores eram os amigos mais velhos e que se iniciaram com as meninas da professora tia Olga. Acho que uma situação dessa na sua família seria inadmissível.

Você deve ter assistido ao filme “O Diário de Motocicleta”. Tem uma cena onde Che Guevara se despede da família para a sua empreitada pela América Latina e seu pai, ao abraçá-lo, diz: “- Filho, você está realizando dois sonhos: o meu e o seu”. Esta cena é emblemática sobre as oportunidades que desperdiçamos e os sonhos que não concluímos. Em conversa com alguns amigos sobre esta cena, vários se dizem frustrados de não terem feito aquilo que o coração sentia, pois tiveram restrições vorazes por parte dos pais.

A forma como você orienta aos pais, leva a crer que os filhos necessitem que todos os riscos que possam ocorrer devam ser extirpados com antecedência. A sua didática limita vertiginosamente o desenvolvimento do adolescente. Aprendi que o que faz sentido para a nossa existência é o enfrentamento dos obstáculos. E é com a derrota que nos nutrimos de sabedoria para novos desafios. Como dizia Oscar Wilde, . . .”Influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma. Ela já não pensa com seus pensamentos naturais, nem arde com suas paixões naturais. As suas virtudes não são reais para ela. Os seus pecados, se é que existem pecados, são emprestados. Ela se converte em eco de uma música alheia, em ator de um papel que não foi escrita para ela. "

Inês de Castro, você leva a vida muito a sério. Acho que você nunca chegou de porre em casa. O seu automóvel deve trocar o óleo a cada 5 mil quilômetros certinhos, na pinta. Eu fico imaginado (e acho que deveriam fazer um laboratório sobre o que vou falar) qual seria o resultado de uma pessoa que fosse educada por você e pela Rosely Saião. Realmente, agora eu “chutei o balde”. Quando juntam vocês duas chega a ser hilário. Imagine qual a síntese desse experimento!!!! O que você acha que iria ocorrer com esse indivíduo? Que tipo de ser humano resultaria desse processo? Este é um questionamento que faço toda vez que ouço vocês duas. Eu até criei um diálogo sobre uma situação hipotética e qual seria a conversa de vocês, como segue:

IC: Rosely Sayão, recebi um e-mail da ouvinte Maria Bernardete, pedindo-nos uma orientação. Essa ouvinte tem um filho de 10 anos e que insiste em querer ir sozinho até a padaria da esquina comprar bala. O que você diz para essa ouvinte?

RS: Pois é Inês, é uma situação muito complexa.

IC: Realmente, hoje em dia é muito complicado. A gente não tem noção do tamanho do perigo.

RS: É verdade. Não sei se você sabe, Inês, existe um estudo da Universidade de John Hopkins, nos Estados Unidos, que comprova que para cada 500 mil crianças que saem sozinha para comprar bala, uma volta com qualquer tipo de escoriação no corpo, em decorrência de pequenas quedas.

IC: Olha, realmente é quase impossível deixar uma criança fazer isso.

RS: E tem mais, Inês, a criança pode até conseguir chegar até a padaria, mas qual é a garantia que temos de que a bala que ela vai comprar não está com a data de validade vencida?

IC: Exato, ainda mais que não tem nenhum adulto por perto para verificar essa situação. Mas Suely, como proceder neste caso?

RS: Olha, o ideal para a mãe, neste caso a ouvinte Maria Bernardete, é demonstrar autoridade.

IC: Concordo. Que, aliás, é a forma ideal de educação e orientação para os nossos filhos. Não é mesmo?

RS: É Inês, neste caso a mãe deve chamar a criança e, com toda autoridade que lhe é peculiar, dizer: - “Olha filho, você não vai comprar bala na padaria da esquina. Nós vamos verificar e, quem sabe, quando você completar 18 anos vamos negociar esta possibilidade.

IC: Muito obrigado, Rosely. Eu sou Inês de Castro, por Dentro do Espelho . . .

Inês de Castro, por favor, venha com a Suely Sayão passar o próximo Carnaval em Salvador. Aqui é uma verdadeira “esculhambação”. É o samba do crioulo doido.Vocês são minhas convidadas. Não precisa elencar quais os problemas que vocês terão aqui. Já vou adiantando que serão vários. Será um verdadeiro processo catártico e vocês precisam se purificar desse estresse e dessa rotina claudicante que vocês chamam de viver. E, lembrando Fernando Pessoa. . . “Sem a loucura o homem nada mais é que a besta-fera que procria”.

Tenha um ótimo fim de semana.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Respeitável Público.

Eu sempre tive paixão por circo. Por coincidência, na última quinta-feira, passou um carro de som na minha rua anunciando a estréia do Circo Europeu para o dia seguinte. Não tive dúvidas, chamei minha esposa, pois como era véspera de feriado e não íamos viajar, seria um programa e tanto.

Na sexta-feira chegamos ao circo para a última sessão. Estávamos aliviados por encontrar três carros no estacionamento. A estrutura era muito acanhada. Ao chegar na bilheteria tive que acordar o funcionário para comprar os ingressos. Pedi duas cadeiras laterais, pois eram mais baratas. Na entrada ainda conversei com o dono do circo. Era um espanhol de idade já avançada.

Quando já nos encontrávamos na parte interna, percebemos que todos os espectadores iriam se sentar nas cadeiras centrais. Faltando cinco minutos para o início, tive a preocupação de contabilizar o público. Eram trinta e duas pessoas, somando-se adultos e crianças.

O espetáculo começou com uma apresentação de dança e em seguida teve a cama elástica. Para um público menos exigente, as duas primeiras apresentações já eram dignas de levantar e ir embora. Mas como já sabíamos da precariedade do empreendimento e por respeito aos artistas resolvemos continuar até o final. A frustação foi quebrada pelas presenças dos palhaços Leite Ninho e Bob Esponja.

Foram escolhidas quatro crianças da platéia enquanto providenciavam a montagem da estrutura do próximo número. A brincadeira proporcionada pelo palhaço foi hilária. Era fantástica a reação das crianças. E o número era bastante simples.

No intervalo compramos um churro recheado e um refrigerante. O churro estava tão frio, mas tão frio que tivemos a impressão de que ele estava guardado desde o último espetáculo da cidade anterior. O segundo tempo foi iniciado com a apresentação do trapézio. A emoção era redobrada, pois a rede de proteção era mais velha que a avó da Hebe Camargo.

Quando acabou o número do trapézio, foram apresentadas atrações mais amenas, como malabarismo, mágica etc. O mais importante e gratificante foi perceber a ausência de animais, pois foi baixada uma lei proibindo a utilização deles em espetáculos circenses.

A situação começou a mudar, pelo menos pra mim, quando o palhaço Bob Esponja foi para a platéia para escolher algum voluntário. Para me safar dessa escolha, me encolhi na cadeira de plástico amarelo tentando não ser percebido. Ainda bem que minha esposa foi solidária (com o Bob Esponja), pois ela, com o dedo em seta, apontou-me dizendo que eu queria participar.

O palhaço Bob Esponja levou-me até o picadeiro e através da mímica interpretou que iríamos jogar uma partida de tênis. Achei que não passaria por uma situação constrangedora. Mas durante o aquecimento, Bob Esponja alegou que a minha axila estava fedendo. Neste momento ele sacou um desodorante de quinta categoria e injetou embaixo dos meus braços e na minha calça. ( Para terem noção da coisa, tive que colocar a calça para lavar e fiquei com o corpo fedendo por um bom tempo).

Para abrilhantar a performance, Bob Esponja amarrou uma faixa na minha cabeça e solicitou que eu vestisse uma minissaia branca. Ainda bem que o circo não estava tão cheio. Mesmo assim, percebia-se a risada da platéia (eles riam de mim e da risada da minha esposa). Fizemos várias simulações de um jogo de tênis, sendo o auge em câmera lenta, acompanhados pela música Carruagem de Fogo . Fui bastante aplaudido.

Antes do número do globo da morte fui novamente escolhido para outra atividade, mas agora com outras pessoas. Consistia em simular a utilização de um instrumento musical. Uma mulher que também foi escolhida começou tocando um violino. No final ela era obrigada a dar uma pequena rebolada. Bob Esponja me escolheu para a segunda apresentação. O meu instrumento seria a bateria. Eu pedi para ser escolhido por último, aí o rapaz que estava ajudando a montar o globo da morte me alertou que o último seria pior. Porém, antes de tocar a bateria eu teria que colocar a bunda para trás e sair rebolando e pulando ao mesmo tempo. ´Fiz a minha parte da melhor maneira possível e fiquei curioso para saber como seria o último.

O rapaz que foi presenteado como sendo o último estava com a namorada e sentavam na fileira que ficava atrás da nossa. Ele tentou escapar pela parte de trás do picadeiro, mas foi impedido pelo palhaço Bob Esponja ( que foi avisado por mim ). O papel dele consistia em colocar os dois braços para o alto, unidos pelas palmas das mãos, e dançar como uma verdadeira rumbeira. No começo ele estava até acanhado, mas depois parece-me que se soltou muito além do limite do movimento circulatório dos quadris. Olhando aquela cena, me descobri como sendo uma pessoa nutrida de alto grau de vingança, pois não seria ridicularizado sozinho.

Foi uma noite inesquecível, pois ouvi de minha esposa que aquilo foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos anos (Pra ela, deixando bem claro). Infelizmente, a bilheteria não foi suficiente para arcar com os custos do espetáculo e com o meu cachê milionário.

Cirque du Soleil nunca mais.