terça-feira, 17 de novembro de 2009

Respeitável Público.

Eu sempre tive paixão por circo. Por coincidência, na última quinta-feira, passou um carro de som na minha rua anunciando a estréia do Circo Europeu para o dia seguinte. Não tive dúvidas, chamei minha esposa, pois como era véspera de feriado e não íamos viajar, seria um programa e tanto.

Na sexta-feira chegamos ao circo para a última sessão. Estávamos aliviados por encontrar três carros no estacionamento. A estrutura era muito acanhada. Ao chegar na bilheteria tive que acordar o funcionário para comprar os ingressos. Pedi duas cadeiras laterais, pois eram mais baratas. Na entrada ainda conversei com o dono do circo. Era um espanhol de idade já avançada.

Quando já nos encontrávamos na parte interna, percebemos que todos os espectadores iriam se sentar nas cadeiras centrais. Faltando cinco minutos para o início, tive a preocupação de contabilizar o público. Eram trinta e duas pessoas, somando-se adultos e crianças.

O espetáculo começou com uma apresentação de dança e em seguida teve a cama elástica. Para um público menos exigente, as duas primeiras apresentações já eram dignas de levantar e ir embora. Mas como já sabíamos da precariedade do empreendimento e por respeito aos artistas resolvemos continuar até o final. A frustação foi quebrada pelas presenças dos palhaços Leite Ninho e Bob Esponja.

Foram escolhidas quatro crianças da platéia enquanto providenciavam a montagem da estrutura do próximo número. A brincadeira proporcionada pelo palhaço foi hilária. Era fantástica a reação das crianças. E o número era bastante simples.

No intervalo compramos um churro recheado e um refrigerante. O churro estava tão frio, mas tão frio que tivemos a impressão de que ele estava guardado desde o último espetáculo da cidade anterior. O segundo tempo foi iniciado com a apresentação do trapézio. A emoção era redobrada, pois a rede de proteção era mais velha que a avó da Hebe Camargo.

Quando acabou o número do trapézio, foram apresentadas atrações mais amenas, como malabarismo, mágica etc. O mais importante e gratificante foi perceber a ausência de animais, pois foi baixada uma lei proibindo a utilização deles em espetáculos circenses.

A situação começou a mudar, pelo menos pra mim, quando o palhaço Bob Esponja foi para a platéia para escolher algum voluntário. Para me safar dessa escolha, me encolhi na cadeira de plástico amarelo tentando não ser percebido. Ainda bem que minha esposa foi solidária (com o Bob Esponja), pois ela, com o dedo em seta, apontou-me dizendo que eu queria participar.

O palhaço Bob Esponja levou-me até o picadeiro e através da mímica interpretou que iríamos jogar uma partida de tênis. Achei que não passaria por uma situação constrangedora. Mas durante o aquecimento, Bob Esponja alegou que a minha axila estava fedendo. Neste momento ele sacou um desodorante de quinta categoria e injetou embaixo dos meus braços e na minha calça. ( Para terem noção da coisa, tive que colocar a calça para lavar e fiquei com o corpo fedendo por um bom tempo).

Para abrilhantar a performance, Bob Esponja amarrou uma faixa na minha cabeça e solicitou que eu vestisse uma minissaia branca. Ainda bem que o circo não estava tão cheio. Mesmo assim, percebia-se a risada da platéia (eles riam de mim e da risada da minha esposa). Fizemos várias simulações de um jogo de tênis, sendo o auge em câmera lenta, acompanhados pela música Carruagem de Fogo . Fui bastante aplaudido.

Antes do número do globo da morte fui novamente escolhido para outra atividade, mas agora com outras pessoas. Consistia em simular a utilização de um instrumento musical. Uma mulher que também foi escolhida começou tocando um violino. No final ela era obrigada a dar uma pequena rebolada. Bob Esponja me escolheu para a segunda apresentação. O meu instrumento seria a bateria. Eu pedi para ser escolhido por último, aí o rapaz que estava ajudando a montar o globo da morte me alertou que o último seria pior. Porém, antes de tocar a bateria eu teria que colocar a bunda para trás e sair rebolando e pulando ao mesmo tempo. ´Fiz a minha parte da melhor maneira possível e fiquei curioso para saber como seria o último.

O rapaz que foi presenteado como sendo o último estava com a namorada e sentavam na fileira que ficava atrás da nossa. Ele tentou escapar pela parte de trás do picadeiro, mas foi impedido pelo palhaço Bob Esponja ( que foi avisado por mim ). O papel dele consistia em colocar os dois braços para o alto, unidos pelas palmas das mãos, e dançar como uma verdadeira rumbeira. No começo ele estava até acanhado, mas depois parece-me que se soltou muito além do limite do movimento circulatório dos quadris. Olhando aquela cena, me descobri como sendo uma pessoa nutrida de alto grau de vingança, pois não seria ridicularizado sozinho.

Foi uma noite inesquecível, pois ouvi de minha esposa que aquilo foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos anos (Pra ela, deixando bem claro). Infelizmente, a bilheteria não foi suficiente para arcar com os custos do espetáculo e com o meu cachê milionário.

Cirque du Soleil nunca mais.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Hoje é o meu aniversário.

O que é o tempo?
Hoje, creio que por volta das 21 horas e 30 minutos, estarei completando 45 anos de idade. Não tenho noção se isso é preocupante ou não. Penso que poderia estar com uma idade mais avançada para desfrutar coisas que outras gerações, anteriores à minha, tiveram o privilégio de testemunhar. E sei que, se eu fosse um norte-americano, seria catalogado como pertencente à geração baby boomer ( que são pessoas nascidas entre 1945 e 1964 ).

O importante é perceber que o tempo não muda. Somos nós que mudamos. Lembro que na minha infância achava que eu nunca seria calvo, pois gozava de uma generosa quantidade de cabelo. E hoje, ao acordar, tenho que fazer manobras com o pente (o meu se chama patapata) para conseguir disfarçar as grandes entradas frontais. Eu percebo esta mudança quando lembro de parentes e conhecidos na fase adolescente e que hoje se preocupam com o cotidiano dos netos.

Agradeço por pertencer a uma geração totalmente diferente da geração atual. Eu quase alcancei a fase em que para prestar vestibular na Fuvest, existiam três classificações específicas: Mapofei, Cescea e Cescem. Eu não consigo explicar do que se trata, porém, a minha prima Cleibe prestou vestibular nesses moldes. E eu lembro quando a Cleibe tinha 17 aninhos e hoje, bem . . .

Alguns eventos foram marcantes durante a minha vida. Quando eu tinha oito anos de idade, cheguei em casa com a minha família e liguei a TV, que ainda era com a imagem nas cores preta e branca. Ao ligar, o jornal estava anunciando a morte de Pixinguinha. Foi no dia 17 de fevereiro de 1973. E hoje a juventude não sabe que é esse gênio da música popular brasileira.

Lembro quando perguntei ao meu pai qual era a idade dele. Ele estava com 36 anos e hoje, se ele estivesse entre nós, seria uma pessoa pertencente à melhor idade com 74 anos. Mas, o que é o tempo ? Nos estudos teosóficos lembro que no Tibete um krita yuga corresponde a 1.728.000 anos. É por isso que certas religiões consideram a nossa passagem por este mundo demasiado efêmera e nada mais é que um processo de depuração para outras vidas. Não pretendo galgar ao posto de avatar, mas passar por este ciclo de nascimento e morte é deveras interessante, mesmo discordando de Empédocles. Mas. . . quem sou eu para discordar de Empédocles?

Vivenciar os fatos nos dá ferramentas para compará-los e tirar algumas conclusões. Lembro muito bem da luta dos universitários pela redemocratização do Brasil. Lembro de Médici, Ernesto Geisel e João Batista de Oliveira Figueiredo. Parece que foi ontem que compareci, em frente ao Elevador Lacerda, ao comício pelas eleições diretas. Estavam presentes Tancredo Neves, Ulisses Guimarães e Osmar Santos. No encerramento, Caetano Veloso restringiu a sua participação cantando a música "Um Frevo Novo", acompanhado do trio elétrico Papaléguas. O que o passar do tempo acarretou ? Tancredo Neves morreu, Ulisses sumiu, Osmar Santos já não fala mais, Caetano Veloso há muito tempo não fala nada interessante e o Papaléguas foi visto pela última vez , há mais de 15 anos,na festa de São Pedro na cidade de Itajuípe . E hoje os universitários estão discutindo qual o tamanho ideal para um vestido na cor rosa.

Com a revolução high-tech, todo mundo é cantor, ator e escritor. Eu mesmo entrei nessa barca. Já que o tempo é efêmero, vamos aproveitar. E no meu tempo de ginásio, eu fazia pesquisa na Biblioteca Presidente Kennedy, em Santo Amaro. E era tudo escrito manualmente, pois eu não tinha curso de datilografia e não havia nem resquícios do recurso ainda atual chamado Ctrl C - Ctrl V.

Creio que estou conseguindo acompanhar a marcha do tempo. A minha esposa, que é apenas 15 anos mais nova do que eu e que foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos 7 anos se beneficia dessa diferença de gerações. Ela ficou estupefata ao saber que eu já tinha ido ao show da Gretchen quando ela estava no auge. O melhor é ver que a Gretchen também está antenada com o tempo, pois ela utiliza um elemento que é a última palavra em matéria de estética facial: o botox.

A minha diversão na infância era andar de trem até a cidade de Jundiaí. Lembro do caminho que fazíamos até chegar à antiga ponte Morumbi para pegar o trem. Íamos eu, meu irmão e meu pai. Não havia nenhum prédio nas redondezas e hoje é o metro quadrado mais caro de São Paulo. Lembro quando minha mãe nos levava para passear no vão do MASP. Havia um brinquedo que parecia uma espaço-nave, pois era uma estrutura redonda, em aço forjado e repleto de molas. Hoje a diversão é um aparelhinho chamado playstation. No sábado passado, um amigo achou interessante que o filho foi transportado dentro de um carrinho de mão em Morro de São Paulo. Na minha infância, carrinho de rolimã era a coisa mais comum.

Não foi me estender sobre as lembranças do passado. Se eu relatar mais um episódio, vão alegar que eu participei da Santa Ceia.

O mais importante é acompanhar toda essa transição e imaginar o que vai ser o futuro. É não se deixar levar pela velocidade que o inconsciente coletivo tenta imprimir. Que tudo tem o seu tempo. O que é bom perdura. Quando vejo Oscar Niemeyer, com mais de um século de idade, executando vários projetos e planejando outros, aumenta o meu ímpeto de me reinventar e conhecer outras possibilidades como ser humano.

O que é o tempo ?

" Marca a hora, o relógio;
mas o que é que marca a eternidade?
Temos esgotado assim
trilhões de verões e invernos.
trilhões há mais pela frente
e trilhões a frente deles"

Walt Whitman.