sexta-feira, 17 de julho de 2009

A Capoeira, o Futebol e o Blues.

Trabalhando por dois anos na região do Centro Histórico de Salvador, percebi algumas mudanças em decorrência desse processo intitulado de globalização. Esta mudança se faz nítida no jogo da capoeira. Esta percepção tem similaridade com o que ocorreu também com o futebol brasileiro nos últimos anos. Alguns capoeiristas de Salvador são adeptos do vigor físico exarcebado com ênfase na prática da musculação e treinamento de outras modalidades. Observando alguns grupos que se apresentam no Terreiro de Jesus, verifica-se que a melhor técnica dessa luta foi praticamente abandonada. Os golpes são desferidos sem a preocupação de alcançar o objetivo principal, que é acertar o adversário. Concorde que a velocidade com que são executados é enorme, porém são ineficientes. Tem-se a impressão de estar assistindo a um jogo de videogame.

O futebol brasileiro segue a mesma linha de atuação. Os jogadores são verdadeiras máquinas atléticas monitoradas por uma avalanche tecnológica de análises e gráficos. Calcula-se a velocidade média de cada jogador e quantos minutos eles retêm a bola. A técnica foi deixada para o segundo plano. Antigamente os jogadores tinham uma qualidade técnica absurda. Os fundamentos básicos desse jogo chamado futebol eram treinados exaustivamente. Eu tive o privilégio de ver Ademir da Guia jogar no Palmeiras. O seu epíteto era "Divino Maravilha". A forma como ele dominava a bola era simplesmente fantástica. Ele ficou nove meses sem errar um passe sequer. Hoje a história é bem diferente. Alguns jogadores não tem a menor intimidade com a bola. Os fundamentos básicos são praticados com bastante dificuldade. Chute, passe, lançamento, cabeceio não são familiares para vários deles. O jogo se tornou tão mecanizado que as principais características do jogador brasileiro (malícia, malandragem, improviso) foram menosprezadas. A ida desses "craques" para a Europa amolda-os a um sistema de jogo castrador. Não existe o atrevimento de tentar o drible (recurso que tem origem na ginga da capoeira e que é congênito da miscigenação do povo brasileiro).

Fazendo um paralelo com o jogo da capoeira, é hilário observar a dificuldade que o europeu tem para a ginga e as danças afro-caribenhas. O Centro Histórico de Salvador é laboratório aberto para observar esta situação. O encanto desse jogo possibilitou que a capoeira fosse difundida para mais de 120 países. Mas a diferença estética é notória. Porém não podemos perder a essência desse jogo. Ele não pode estabelecer padrões advindos de outras artes marciais. Os elementos da capoeira primitiva são tão necessários como o jazz e o blues das antigas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos. O virtuosismo e a improvisação do "bebop", uma corrente do jazz, foi uma forma de impedir a hegemonia do músico branco. E a síncopa do "bebop" teve o mesmo efeito do drible desconcertante do primitivo jogador de futebol brasileiro. Depois que Muddy Waters foi para Chicago e "eletrificou" os instrumentos acústicos, alguma coisa preciosa, típica da passionalidade melancólica do negro, também ficou para trás.

A globalização é irreversível, porém as nossas características natas devem ser preservadas e respeitadas. Existe dinamismo na absorção de outras culturas e técnica, porém devemos nos preocupar em não perder a essência que nos diferenciam nos momentos decisivos. A rasteira e o drible podem ser fatais para dominar o adversário.

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